
Xemalami Zugzwang by XEMALAMI


Por Fanti Manumilde
Ainda lembro quando esta família mudou-se pra cá. De fato só queriam um lugar para morar.
Era apenas outra família brasileira, que sempre batalharam a sua vida inteira.
Vindos do nordeste, do sertão de Pernambuco, na ilusão de construir um belo futuro.
E felizmente alcançar um bem estar familiar. Só que uma coisa você tem que lembrar.
O nordestino aqui cara nunca tem vez. Desrespeitado e humilhado pelo o que não fez.
Para conseguir emprego tinham que ser alfabetizados. Com o filho pequeno pra criar ficaria embaçado.
E à um abrigo foram encaminhados. A incerteza naquele momento seria inevitável.
O futuro agora era incerto. O fracasso estava cada vez mais perto.
Infelizmente era uma triste realidade. Morar na rua foi uma grande fatalidade.
É parceiro não havia outra solução. O favor cedido é sempre pago com ingratidão.
É foda as condições que a sociedade oferece. Desnorteados pensaram em retornar ao nordeste.
O jeito foi morar embaixo de um viaduto. A verdade nua e crua, este foi o refugio.
Ninguém merece tal constrangimento. Catando papelão então o pai tirava seu sustento.
A mãe pedia esmolas diariamente no farol. Fazendo chuva ou fazendo sol.
Que o filho pequeno não passasse fome. O que a sociedade rejeita, é o que a gente consome.
O governo não ajuda aquele que é pobre. A negligência dele é a causa da nossa morte.
O ser humano aqui não tem mais valor. Este é o motivo do ódio preenchido de dor.
Uma família faminta com os sonhos destruídos. Por que tudo isso teria acontecido?
Destroem o povo, matando o núcleo familiar. É um ciclo que nunca irá acabar.
Sempre houve o descaso com o nosso povo. Hoje em dia nossa vida escorre pelo esgoto.
Só quero paz para as pessoas sofredoras. Mesmo sendo esta a última coisa.
O valor da vida não existe mais. Segura na mão de Deus e vai.
Enquanto isso nas ruas a miséria aumentava. O crescimento da violência sem controle aumentava.
A sobrevivência sempre foi de forma precária. Nunca houve ajuda que fosse necessária.
Tudo isso ocorre no final dos anos oitenta. E a cada ano surgia um novo dilema.
Sem esperança, era só frustração. Com o passar do tempo outra desilusão.
Eis que invadiram um terreno abandonado. No qual aquela família construiria um barraco.
No Sacomã, mano, ali no Heliópolis. Aí quem é pobre faz como pode.
Não morariam mais embaixo de um viaduto. Um barraco agora seria o tal futuro.
Numa carroça a pouca mobília era trazida. Pra ser sincero quase nada eles tinham.
Depois de alguns anos vivendo na mendigagem. Desde quando fizeram aquela frustrada viagem.
Agora amigo era seguir em frente. Arranjar um emprego que fosse decente.
E um dia deixar de catar papelão. Nada como ser considerado um cidadão.
Não mais ter que pedir esmolas. Sei que ninguém quer viver dessa forma.
Todos só querem um pouco de dignidade. O mais cruel é o sistema que ferra de verdade.
Só que o tempo é um relógio que não atrasa. A convivência na favela violenta é o que embaça.
No período de pior crise, o desemprego se faz presente. O mínimo salário foi ficando ausente.
O filho agora adolescente tem que trabalhar. Os seus estudos como vai conciliar?
Quem é pobre estuda, porém não come. Ou então trabalha pra não morrer de fome.
Sem experiência o jeito foi arranjar um bico. Na humilhação de ganhar meio salário mínimo.
Era ‘osso’ as condições naquele momento. A revolta foi conseqüência de tanto sofrimento.
O sufoco aumentava com os pais desempregados. Iriam viver de novo aquele terrível passado.
E o mano se vê bastante indignado. Enfrentando sol e chuva dentro de um lava rápido.
Não são todos que suportam o peso da cruz. No final do túnel não existe aquela luz.
O chefe da família encontrou-se com a cachaça. Alcoólatra desiludido ele logo se acaba.
Entregue totalmente ao mundo do vício. O final trágico não seria difícil.
Sem alimentação adequada ou tratamento ele adoece. Sem recuperação ao relento aquele homem falece.
Não sei direito, mas aquilo parecia previsto. Na situação de morto exposto ao ridículo.
Poucos se comovem, isso é o que dói. Ele era pobre não era playboy.
Este foi o seu fim, o ponto de partida do que aconteceria logo em seguida.
Um tombo atrás do outro não deixa alternativa. Fica muito fácil em desistir da vida.
Porém a vontade de viver consegue superar a morte. Sabemos que a miséria em nossas vidas percorre.
Agora o mano teria uma nova responsa. Segurar a bronca da coroa e da goma.
A coroa com a saúde um pouco abalada. Já de idade e ainda por cima desempregada.
A lembrança do passado o faziam chorar. São marcas profundas difíceis de apagar.
Com o bico que fazia não piava muita grana. O rango era pouco durante toda semana.
Sem tempo de estudar assim vai seguindo. Queria voltar aos estudos, só pensava nisso.
Dar uma força pra coroa e construir sua goma. Ser digno na vida e não mais ficar a toa.
O mundo gira maluco e você tá ligado. Década de noventa o destino está traçado.
Na favela o crime cresce sem precedentes. Seqüestro, tráfico e chacinas são mais freqüentes.
O desemprego influi na explosão da violência. O povo morrendo é a principal conseqüência.
E quando olharmos pra trás o que veremos? Carne crua sangrando num passado violento.
O que fazer com o mundo que existiu ao seu lado. Porque não tinha mais aquele emprego sacrificado.
Por outro golpe não estava mais empregado. Tinha sido despedido do lava-rapido.
Sua vida agora não teria mais significado. Sonhos desperdiçados.

Do mundo sou o imundo...o lodo...a podreira ...
o que dá nojo...a lama...o resto de feira...
o móvel velho e tronxo...a camada de poeira...
sou dejeto...sou incomodo...
o que atrai ave de mal agoro...
miolo de saco preto...o chorume que escorre pro centro...
o barro no tapete vermelho...a cara feia do espelho...
o estorvo na esquina...
a fumaça que irrita a retina...
vírus que dissemina e contamina...
sou água parada...empossada...
o mal cheiro que exala da vala lotada...
sou caixa de papelão amontoada...
amassada...vazia e pesada...a preço de nada...
o que virou cama na calçada...
sou coisa sem uso quebrada...
entulho do quarto da empregada...
pros mais entendidos...sou resíduo...
sólido ou liquido...gasoso ou pastoso...
cuidado posso ser venenoso...
sou inquilino de terreno baldiu...
aquilo que um dia serviu...o que você consumiu...
a fruta estragada que do pé não caiu...
entulho na margem do rio...
sou problema ambiental...social...
obsoleto virou banal...
esquecido em qualquer quintal...
o que pode te fazer mal...sinonimo de marginal...
o que não foi reciclado...
abandonado depois de usado...
desvalorizado...pelo tempo o quadro desbotado...
Mas não me dei por rogado...
O que não mata engorda...já diz o ditado
Peguei todo esse lixo que a mim foi doado...
Fiz dele minha arte e deixei meu legado...
Pra eu estar em movimento...é só não ficar parado
Mas por você...fui subestimado...
É só olhar pro passado...
Se eu tivesse te escutado...
Hoje estaria ao seu lado...
Mas cá pra nóiz tiu... lugar de vencedor...
Não é junto de derrotado.
tubarão
Local: Espaço Casa Bola – Av. Faria Lima, 2889
Data: 1º a 19 de junho
Horário: das 10h às 14h e das 17h às 21h, de seg. a sex;
das 10h às 21h de sáb. e dom.

Sobre Um Teto para meu País - Brasil
Um Teto para meu País (UTPMP) é uma organização que trabalha para melhorar a qualidade de vida de pessoas que vivem em condições de extrema pobreza por meio de construções de casas de emergência e planos de desenvolvimento social. A organização tem como objetivo posicionar o seu trabalho para se tornar referência no combate à extrema pobreza na América Latina. No Brasil, são desenvolvidas constantes ações a fim de divulgar para toda a sociedade a atuação com as famílias mais vulneráveis do continente. Desde que iniciou sua atuação no Brasil UTPMP já construiu 473 casas de emergências para pessoas em condição de extrema pobreza na Grande São Paulo. A ONG conta com a colaboração de doações de pessoas físicas e de grandes empresas para realizar as construções e mudar o cenário da desigualdade na América Latina.
Histórico da Um Teto para Meu País
Por iniciativa de um grupo de jovens universitários, a organização nasceu no Chile, em 1997. O objetivo inicial era denunciar, através da construção de moradias de emergência, a pobreza em que viviam milhares de latino-americanos. Em 2001, após dois terremotos na região do Peru e de El Salvador, que pioraram a vida das comunidades daquelas regiões, a ação passou a se expandir no continente. Hoje são mais de 400 mil voluntários e 76 mil famílias já beneficiadas nos 19 países em que a organização está presente: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela.
Mais informações em www.umtetoparameupais.org.br
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Diretora de Comunicação
Um Teto para meu País – Brasil
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