quarta-feira, 17 de junho de 2009

A MANCHA ROXA

Espetáculo teatral que narra a trajetória de seis mulheres, detentas em uma única cela,  se debatendo, amando, criticando, se expondo, amargurando seus dias,  e definhando com a Mancha Roxa em seus corpos. A partir daí tecem suas vidas através de jogatinas humanas para sobreviver sob pressão de uma corrupta e opressora carcereira. Mulheres que "ficam pasmadas diante do espelho sem reflexo onde o tempo frio escoa no relógio sem ponteiros"

Uma das obras (senão a mais) mais forte de Plínio Marcos. E, por isso, muito pouco encenada.

Próximo sábado Dia 20/06/2009

Horário: 19h30 - Entrada Gratuita

Local: Oficina Cultural Regional Pagu - Praça dos Andradas, s/nº - Centro - Santos/SP

Suburbano no Centro

*clique na imagem para ampliar

terça-feira, 16 de junho de 2009

Reclamar?

Tempos difíceis esses de hoje que nos assolam 
Mas não me lembro de dias muito diferentes 
Talvez o tempo de criança correndo atrás de bola pelas ruas do bairro 
Mais isso foi só até os quartoze ...depois disso pendurei a chuteira 
Continuei correndo... mais agora como boy...office boy 
Escola tive que parar...não conseguia me concentrar... 
O sono falava mais alto que o estridente professor. 
Queria ele que eu entendesse de física...quimica. 
E eu prestando a atenção na repetente de pernas magníficas 
Vários maninhos...vários convites...até que me comportei bem...acredite 
To aqui pra relatar a historia...outros só na memória...saudade que bateu agora 
Maioridade...barba na cara...fudeu...daqui pra frente é sem massagem...pensava eu 
A essa altura já trampava em obra...pra quem não estuda é isso que sobra 
Morador de alojamento...zona sul de sampa...bairro de Pedreira...Vixi ali a coisa era feia... 
Mosquitos...ratos...goteiras...pião embriagado...só bagaceira 
Reclamar? Tem fila querendo seu lugar...melhor eu ir trampar. 
Transferência...zona leste...Jardim Marilia...Aricanduva...reze pra que não caia chuva 
Logo percebi porque do toque...firmeza tenho bastante fé no estoque 
Barraco super lotado...além da fauna de costume...outros tantos que não tem nome 
Pernambuco...Alagoas...Ceará...Bahia...era assim que os conhecia 
Trampo da porra...as vezes era de noite...as vezes era de dia... 
Tinha vez que era de noite e de dia...Ave Maria 
O homem quer inaugurar logo..fim de ano chegando o Shopping tem que ta funcionando... 
Reclamar? Tu ganha hora extra...pode crer deve ta escrito otário na minha testa 
Transferência...dessa vez o bonde é mais perto Itaquera...chamaram meu nome...já era 
Barraco apertado de novo...pelo menos é de alvenaria e tem forro. 
Esse inverno ta foda...pra piorar o banheiro ainda é do lado de fora. 
O rango é diferente...a diversão igual sinuca e água ardente 
Meu parceiro que hoje é finado dizia que só bebia pra agüentar o batente 
Que Deus o tenha num lugar mais decente 
Sabe o que me salva é o som...samba e rap do bom 
Ponho o fone no ouvido e viajo no meu mundo proibido 
Aprendi muito assim....parecia minha mãe dando conselho pra mim 
Carro novo chegando...é o patrão...pra eu visitar mina mãe pego 3 condução 
Mais ta bom tem cara aqui que pega mais...e pior nem sabe quem são seus pais 
Ainda bem que terminou esse trampo...tomara que o outro seja melhor..to rezando 
To sabendo que é na marginal...sede de um banco...Jardim Europa...e coisa e tal 
Reclamar ? Ta brincando...tu num vê tv o desemprego só aumentando 
12 andares e só um dono...quer tudo pronto sem atraso até o final do ano 
Num é ele mesmo que vai ralar feito um insano...o jogo é assim mesmo mano 
Pior que minha mente ta pirando...stress acumulado disse o doutor já me medicando 
Tenho que manter a calma e vê se consigo pelo menos salvar a alma 
Pronto o prédio ta em pé ..inaugurado...tem até lugar para pousar helicóptero 
Muito obrigado ta dispensado pode passar no escritório 
Vários anos de suor ...7 no total...vim da Baixada pra capital...tentar coisa melhor 
Pra ser tratado como lixo...é a vida num é fácil tiu.. 
Reclamar? nada vou sair dessa...vou renascer dulixo ! 

*Em memória de Franscisco Martins Oliveira ( Chicão)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Em Construção...




Arte em isopor...papel machê...plástico...em breve arte pronta aqui.

*fotos: Stella Carvalho

Recicle Ideias



Salve todos...neste Sábado dia 20/06...o Projeto Recicle Ideias estará em São Vicente na Praça do H no Bairro do Humaitá a partir das 13:00 hrs ...com teatro...música...túnel interativo...e oficina de arte com lixo com nós do coletivo Dulixo...quem quiser participar de uma tarde de diversão e informação é só chegar...a entrada é franca.

Mais informações :

http://atribunadigital.globo.com/trifm/recicle/

Conexão Kolombolo e Quilombolas

Cordão Carnavalesco Diá Piratininga

Todo Primeiro Domingo do Mês

A Partir das 17hs.

Local. Sede da A.A.P.P.- Rua 5 do Jardim Leme ( Ponto Final do Circular 2) Taboão da Serra SP.

Realização:

A.A.P.P. – Kolombolo – Elemental - À.F.I.R.M.A - Z´Àfrica Brasil - C.O.N.G
Gaspar - Elemental Produções.

www.myspace.com/zafricabrasil
http://www.zafricabrasil.blogspot.com/
http://www.pontepretajdleme.blogspot.com/
http://www.livinastro5000.com/

Rádio Protesto


www.radioprotesto.com

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Poesia - Nossa senhora da Esquina


  
Morreu ontem,
com muita dignidade,
a puta mais velha da cidade.
 
Da sua idade
não estou bem certo,
mas sei que dos oitenta
chegou perto.
 
Veio a morte
pela parede fria
do seu quarto,
onde jazia
um quadro de São Jorge.
 
Usava um antigo
vestido vermelho,
mesma cor do batom
na boca,
que nunca abriu
pra falar mal do governo.
 
Por esposas iradas,
mas de uma vez,
foi desafiada.
Sofreu sevícias
na mão dos homens
da policia.
 
Um cliente muito terno,
que escrevia poesias
em um caderno,
lhe jurou amor eterno.
Deu jóia,
roupa cara
comida para o sustento...
Mas ela fugiu
quando ele propôs a ela
um casamento.
 
Ela não se contentava
com paixões reles.
Não queria ser tratada
igual as outras mulheres.
Que se vendem para os maridos,
pr´os patrões e para os filhos;
em suas sinas resignadas...
A troco de nada!
 
Preferiu os bregas,
o Parque do Ibirapuera
e idas ocasionais a São Vicente.
 
Sempre achou deprimente
visitar o filho no domingo.
Macarrão
Faustão
e a nora tida como santa.
 
Espanta
esse critério
que define
o que é
e o que não é
sério.
A puta mais velha da cidade...
 
Morreu sem alarde
sem companhia.
Morreu de pneumonia;
mas não houve melancolia
e nem luto.
 
Com sua morte anunciada,
as putas os putos
largaram as calçadas
do Trianom
e foram fazer folia
lá longe, na periferia,
em que ela morava.
Foi um grande frissom!!!
 
Teve festa com seresta
com samba e com cachaça.
Veio criança, velho,politico...
E até o padre, sumido,
deu o ar da sua graça.
 
Todos celebraram a passagem
daquela dama fina
que um dia
saiu menina
do raio da silibrina.
E agora é canonizada
a Nossa Senhora da Esquina.

Augusto

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Som da Lata

Oficinas de percussão / musicalização e construção de instrumentos é uma parceria entre o grupo Kelu-Kesô e o músico e professor George Lacerda. Crianças transformam garrafas plásticas, papelão e madeira em música.

311
Coordenado pela produtora cultural e focalizadora de processos comunitários participativos Mariana Baeta, o projeto Som da Lata trabalha sobre os eixos música e educação ambiental. Por meio de oficinas educativas, os alunos aprendem a construir os instrumentos a partir de sucata como garrafas pet, papelão, madeira, cano de PVC e materiais encontrados na natureza como sementes, cabaças, bambu, aprendendo também a reciclar o que é considerado descartável, transformando o “lixo” em música. 

Com o patrocínio do Fundo de Arte e Cultura da Secretaria de Cultura do DF (FAC), o Projeto Som da Lata teve início em fevereiro de 2009. A primeira oficina atendeu cerca de 30 alunos, entre 11 e 16 anos, que fazem parte dos programas sociais do Instituto Nair Valadares (INAV), localizado no Riacho Fundo II.

Com carga horária de 72 horas/aula, duas vezes por semana, durante três meses cada oficina, os alunos aprendem a construir instrumentos musicais com sucata recolhida por eles mesmos. Tambores, chocalhos e até instrumentos de corda e sopro já foram produzidos. Com os instrumentos prontos, eles partiram para aprender a tocá-los, formando uma banda de percussão que se apresentou para os outros alunos, familiares e funcionários do Instituto, encerrando assim a primeira oficina. Ao final das oficinas, os alunos ficam com os instrumentos fabricados por eles, podendo dar continuidade à sua prática musical.

A partir da prática da construção de instrumentos musicais e da música, o projeto pretende despertar nos alunos participantes a consciência da importância da reciclagem aliada ao fazer artístico. Além da educação ambiental, o projeto também trabalha com o ensino e resgate de ritmos brasileiros como samba, côco, baião, frevo, marchinhas, maracatu, maxixe, cavalo marinho e outros, contribuindo para o conhecimento e valorização das culturas populares do Brasil.

A segunda oficina teve início em abril de 2009, atendendo aos alunos dos projetos sociais da Associação Cultural TamNoá – Tambores do Paranoá. Ainda na fase de construção dos instrumentos, os alunos do Paranoá estão descobrindo as muitas possibilidades de transformar a sucata em sons diferentes e peculiares. A oficina está com encerramento previsto para julho de 2009, concluindo assim o Projeto Som da Lata patrocinado pelo FAC.

Ao final, haverá um grande encontro entre os alunos do Instituto Nair Valadares, atendidos na primeira oficina e os alunos da Associação TamNoá, em que os participantes poderão trocar idéias, instrumentos, descobertas, as técnicas aprendidas e muito mais.

Coordenação e Produção: Mariana Baeta

Músicos-Instrutores: Junai, Leonardo Kaju e George Lacerda

Instituições atendidas: Instituto Nair Valadares (INAV) - Riacho Fundo II e Associação Cultural TamNoá – Tambores do Paranoá

Período: fevereiro a julho de 2009 (segundas e quintas, das 14h às 17h

Carga horária total: 144 h/aula (as duas oficinas)

Fotos: Randal Andrade

Contatos para entrevistas: Mariana Baeta: marianabaeta1@gmail.com - (61) 3532 9725 / 8402 3120

“A região da Baixada Santista não tem “ambiente” para comemorar nada”

[Bárbara Maria B. de Jesus é santista, historiadora e anarquista. Nesta entrevista, concedida à ANA, ela vai na contramão daqueles, principalmente governantes e grandes empresários, que alardeiam que não há mais poluição e degradação ao Meio Ambiente na Baixada Santista, que tudo é um “mar de negócios”, de crescimento “sustentável”. Para a jovem libertária, os grandes projetos que estão sendo divulgados e implantados na região só vão piorar a questão ambiental e social no litoral santista. Ela ainda critica fortemente o modelo econômico contemporâneo: “Essa prática "desenvolvimentista" é um embuste”. E ressalta que “o necessário agora, no patamar que estamos é desacelerar, não apenas na Baixada Santista.” Confira a seguir  a entrevista de quem não caiu no conto da “sereia capitalista”.]

Agência de Notícias Anarquistas > Está chegando o Dia Internacional do Meio Ambiente. E aí, dá para comemorar essa data na Baixada Santista?

Bárbara Maria B. de Jesus < (risos) Não, não dá mesmo, ainda temos inúmeros problemas em todo o complexo da região da Baixada Santista. As indústrias de Cubatão continuam a poluir, as maiores indústrias no Estado de São Paulo emissoras de CO2 estão nesta cidade. Além disso, temos a política de expansão do porto de Santos, o que só tende a piorar a questão ambiental e social em nossa região, a poluição das áreas estuarinas de Santos-Cubatão-Guarujá, sem contar a balneabilidade das praias, que sempre estão impróprias, a verticalização cada vez maior dos prédios em Santos e o conseqüente aumento de esgoto, lixo, carros, consumo dos recursos naturais etc. No Guarujá, a água consumida pela população está com índice de coliformes fecais acima do aceitável. E a cada ano perdemos vastas áreas de Mata Atlântica. É cada vez maior a impermeabilização do nosso solo. Também podemos indicar a própria questão das moradias na região. São Vicente é uma das cidades com maior índice de favelização do Brasil, isso já demonstra o descaso dos políticos com iniciativas que realmente modifiquem a situação de miséria das pessoas. Sem ter aonde ir, elas vão parar em áreas de mangue, por exemplo. Veja o caso de “expulsão” dos índios Guarani que está acontecendo na região do Parque Xixová, em São Vicente, com reuniões para resolver o “problema indígena”. Em nossa região a especulação imobiliária ganha ares de “Cosa Nostra”, e nos deparamos com essas aberrações, entre tantas outras, como a construção de resorts de luxo, campos de golfe etc. Assim, podemos dizer que a região da Baixada Santista não tem “ambiente” para comemorar nada.

ANA > E o aumento cada vez maior de veículos de transportes na região, não são problemas seriíssimos? Parece-me insano esse consumismo desenfreado em relação ao automóvel... (risos)

Bárbara < Bom, insano é uma boa definição, a individualização crescente, o consumo desenfreado, a necessidade de “novidades” criam esta situação, cada um com seu carro, com uma arma, pronto para atacar qualquer “inimigo”, que nesse caso são os pedestres, os ciclistas e outros carros. (risos) Isso sem contar o absurdo do excesso de CO2 dos carros e de outros  veículos motorizados, das bolhas de calor que ocorrem na Baixada Santista etc.

ANA > E vai ter espaço para tanta “chapa de aço”? Você não acha curioso que em nossa região tenha mais, muito mais estacionamentos que livrarias, cinemas, teatros... (risos)

Bárbara < Olha, do jeito que a coisa está, a idéia é competir com os "astronômicos" engarrafamentos de São Paulo, mais ou menos com a proporção de um carro por pessoa. Mas não podemos esquecer que a cidade de Santos, por exemplo, é uma ilha. Já imaginou, um engarrafamento que é um círculo? (risos)

Em relação às livrarias, é muito triste constatar que não apenas na Baixada Santista, mas em todo o país, o número de livrarias, bibliotecas, hemerotecas são irrisórios. Segundo dados, temos apenas 2.680 livrarias em todo o território nacional. A distribuição entre as regiões, é pior, pois 68% das livrarias se concentram no sudeste e no sul do país. Agora pensemos, o Brasil é um país de extensões continentais, e apenas isso de livrarias? Claro! Afinal, onde tem leitura, tem senso crítico! Algo muito perigoso, não acha? (risos)

ANA > Atualmente há um ufanismo muito grande de governos e corporações em torno da exploração das camadas do pré-sal na Bacia de Santos, em buscar petróleo entre 5 e 7 mil metros de profundidade, mas pouca discussão sobre os impactos ambientais que isso ocasionará. Você entra nesta euforia? (risos)

Bárbara < (risos) É, digamos que eu não sou eufórica... Na realidade o pré-sal é visto como uma "salvação" para a Baixada Santista, o que novamente é risível, e em momento nenhum foi questionado o impacto ambiental e social que isso ocasionará para a região, inclusive a "mídia escatológica" fez reportagens, para explicar aonde se encontrava o pré-sal e todo o blábláblá que conhecemos: empregos, royalties, desenvolvimento etc. Interessante notar, também, que aos olhos de todos, o pré-sal só trará benefícios! É incrível, chega-se a afirmar que nem haverá impacto ambiental! Ora bolas... O lance é o desenvolvimento!

ANA > No Estado de São Paulo, talvez, nossa região seja uma das que mais emite gases do efeito estufa na atmosfera, como o CO2, através das indústrias de Cubatão, das atividades no Porto de Santos, do tráfego pesado de caminhões, motos, carros... Em sua opinião, as pessoas da Baixada Santista estão inteiradas deste grave problema das mudanças climáticas? Com a possibilidade real da elevação do nível do mar na Baía de Santos?

Bárbara < Acho que podemos dividir em duas vertentes: aquelas que não sabem mesmo, e nem imaginam que a elevação do nível do mar, e o conseqüente “alagamento” da região é um fato, e outras que sabem, mas não se importam. Mas não precisa ser um "expert" para perceber o que está acontecendo. As chuvas, inclusive chuvas de granizo, os alagamentos, as "ressacas" em maiores quantidades e mais impactantes, ventanias, o aumento cada vez maior das doenças respiratórias etc. E temos, também, os que não se interessam, não querem modificar nada, querem mais é um carro para cada habitante, se tem bolha de calor, ora, ligue o ar-condicionado! E por aí vai... A grande questão é: a ignorância é vizinha da maldade, e assim, cabe aos que sabem, alardear a notícia, para que todos percebam que essa prática "desenvolvimentista" é um embuste. O necessário agora, no patamar que estamos é desacelerar, não apenas na Baixada Santista. Então voltamos à grande questão novamente: é lutar contra o capital!

ANA > Você falou do aumento cada vez maior das doenças respiratórias na Baixada Santista por causa das mudanças climáticas. Mas sabia que a incidência de doenças respiratórias, câncer no pulmão, na nossa região é um dos mais altos do Estado de São Paulo, dado a exposição da população a diversos produtos químicos, consumo de alimentos contaminados, entre outras variáveis?

Bárbara < Veja só, e eu que pensava que era a região do ABC, não sabia. Vale lembrar que os políticos da região afirmam que aqui tudo é "divino-maravilhoso", ar puro, mar limpo, trânsito calmo etc. Às vezes me pergunto se realmente não vivemos em universos paralelos, eles lá, e nós, aqui, no meio da poluição, do caos urbano, da sujeira, do desrespeito em geral.

ANA > Em sua opinião, a atuação do principal grupo de comunicação da Baixada Santista, Grupo A Tribuna, é de muita manipulação e hipocrisia na cobertura dos assuntos ambientais?

Bárbara < Claro! Temos na Baixada o discurso demagógico de Porto-Desenvolvimento. E aí eu me pergunto: desenvolvimento para quem? Eu? Você? A população dos cortiços do centro de Santos? O Grupo A Tribuna é político, é uma empresa comercial, de negócios, e sempre esteve ligado aos “donos do poder”, sabemos muito bem as intenções por trás do discurso de desenvolvimento da região, mais empregos, arrecadação etc. A questão aqui, é que esse discurso é engolido por muitos, e com o aparato midiático que dá sustento a essa verborragia, fica muito difícil mostrar as pessoas o absurdo que é ser a favor de uma maior verticalização da região, de uma expansão portuária completamente caótica, de mais estradas para a região. Ora, vamos discutir sobre a malha ferroviária quase inexistente nesse país! Aliás, as ferrovias que temos na nossa região foram privatizadas, e não estão servindo para transporte de pessoas, mas para transporte de cargas, soja transgênica... A política brasileira de transportes é centrada em rodovias, na construção de mais estradas, viadutos... E todo mundo acha “normal”! Pensando no Grupo A Tribuna, em alguns momentos reflito que não saímos dos resquícios do Golpe de 64, se é que você me entende... tipo... Pra frente, Santos! (risos)

ANA > Além do Grupo A Tribuna, as universidades também desempenham um papel importante de manipulação, normalização e conformismo social, não?

Bárbara < Claro! Aqui na região, o que predomina são as universidades privadas, e é claro, mesmo que tenhamos algumas que se afirmem “filantrópicas”, visam o lucro. Há algum tempo atrás, tivemos manifestações contra o aumento das mensalidades. Bom, acho que a gênese da questão é muito mais embaixo, a luta não pode ser contra o aumento, mas sim a favor de mais vagas nas universidades públicas. Infelizmente, no Brasil, existe o binômio: alunos de universidade pública – oriundos de escolas particulares. Esse é o problema, e os campi das públicas aqui, ficam relegados a um pequeno grupo de “abastados” que vão morar na praia. A população da Baixada Santista não participa da qualidade do ensino, e o conformismo, a normalização passa por aí. Já viu o campus da UNESP, em São Vicente? É vergonhoso! E nos vemos “lutando” a favor de mensalidades mais baratas. Poxa, isso é muito triste e ingênuo ao mesmo tempo.

ANA > Chama minha atenção também o fato que muitos cursos de gestão ambiental, tecnologia ambiental, e outros mais, são ministrados dentro da perspectiva do “desenvolvimento sustentável”, do crescimento econômico infinito num Planeta finito, de que é possível crescer em harmonia com a natureza, acreditam nas novas tecnologias... E para piorar muitos destes professores são diretores de ONGs ambientalistas, ou fazem parte de conselhos “verdes” de grandes empresas... Tragicômico, não? (risos)

Bárbara < Sim, patético (risos). Andei pesquisando sobre o tema e achei duas "profissões" de meio ambiente, veja só: contador ambiental e gestor ambiental, sendo definido o primeiro como aquele que contabiliza os benefícios e os malefícios de determinado produto em relação ao meio ambiente, e o outro é conhecido como "gerente do meio ambiente". Bom, só por essas já entendemos que o meio ambiente é um empreendimento, onde temos que fazer a "redução de danos", ou seja, produzir cada vez mais, mentindo com a mesma velocidade. É algo como a propaganda do Banco Bradesco: abra uma conta bancária e salve o meio ambiente! Consegue ver relação? Pois é, eu também não. (risos) Esses cursos pretendem é abrir o caminho das empresas para isenção de impostos com o que agora é chamado de "terceiro setor", onde o politicamente correto é alardeado, e assim paga-se menos em tributos, simples assim, na lógica do capital.  E preparar alunos para a “sociedade de mercado”, acríticos...  

ANA > Te surpreende o fato de muitas ONGs ambientalistas da nossa região não ter em sua base de princípios idéias anticapitalistas?

Bárbara < Não me surpreende, infelizmente. Na realidade, várias ONGs da região da Baixada Santista, e de várias partes do mundo, colocam-se como “terceiro setor”, que nada mais são do que um “braço” das empresas, justamente aquelas que poluem, degradam, causam os maiores impactos ambientais. E dentro dessa “lógica bizarra”, a empresa, a máquina capitalista é empreendedora, e com isso, desenvolvimentista e “do bem”. O que vemos são grupos (partidários ou não), que utilizam termos do “politicamente correto” para conseguir arrecadar dinheiro e marketing pessoal. Isso ocorre aqui na Baixada, isso ocorre em vários lugares. Cito o exemplo das propagandas do refrigerante da Coca-Cola, que está sendo veiculado na TV, faz-se claramente a referência de “compre uma Coca-Cola, e proteja o “meio-ambiente”. (risos) É bem nesse absurdo que muitas ONGs trabalham.

ANA > Além das aberrantes contradições e oportunismos que muitas ONGs ambientalistas carregam, ademais dos dirigismos, hierarquias, centralização... têm o fato que elas desmobilizam, domesticam e superficializam à luta ecologista estritamente no campo jurídico, da democracia burguesa, das representações, criando uma falsa esperança de que advogados, juízes ou promotores vão barrar qualquer projeto. O que você acha?

Bárbara < Concordo plenamente, vejamos exemplos práticos: o loteamento Iporanga, no Guarujá, foi "aceito" pela lei, está dentro de reserva de Mata Atlântica, isso porque nós atualmente só temos 7% de mata original, o megalomaníaco projeto de Silvio Santos, com o grupo Jequitimar no Guarujá é a mesma coisa, a praia, pública, tornou-se privada, e aceita pelos "órgãos competentes". A Mineradora Rio Branco, não diminuiu suas retiradas de cascalho dos leitos do Rio Branco, em Itanhaém, o Mendes, empresário do ramo de construções de Santos, não pára de fazer suas "aberrações artísticas" em formato de prédios que mais se parecem com a Caverna, do Saramago. Esses são pequenos exemplos do que foi "legalizado", amortizado, pela esfera jurídica, e não resolveu os problemas reais que a população enfrenta. E é nesse momento que acredito na validade das ações diretas, como vemos em outros países.

ANA > Como você vê a questão de muitos projetos desenvolvimentistas negativos ao meio ambiente da região ser amparados por órgãos e secretárias ambientais?

Bárbara < O lobby está aí, ele existe, o enriquecimento ilícito também, temos em todo o país uma "máquina viciada" em corrupção, para todos os lados, secretarias municipais, estaduais, ministérios. São órgãos partidários, e suas campanhas são patrocinadas exatamente por esses "bons moços" que querem o desenvolvimento. No final, tudo se resume a uma troca de favores, de dinheiro, de poder... E a Baixada Santista não é nem um pouco diferente, em Cubatão, só faltam afirmar que o "ar é respirável" e querem mais indústrias. Em Santos, todo o excesso de lixo, esgoto etc., e mais prédios, aumentando o Porto, no Guarujá a mesma coisa. Em Praia Grande uma idéia de criar Porto Seco, em Itanhaém, um aeroporto... Eu nunca vi uma secretaria de meio ambiente da região criticar algum projeto de modo efetivo, proibir algo, tudo é "questionável", "resolvível"...

ANA > Às vezes fico me perguntando como na nossa região, que já foi porta de entrada e berço dos anarquistas, até chamada de “Barcelona libertária brasileira”, hoje, praticamente, se transformou num cemitério em termos de lutas sociais, de pensamento critico, antagonista... Você como historiadora, qual a leitura que faz de tudo isso, deste esvaziamento de lutas e idéias?

Bárbara < Penso que a questão é em âmbito nacional, não apenas regional, o que ocorre é um “esvaziamento” de idéias, um mais do mesmo, o papinho do Fukuyama com o Fim da História depois da Queda do Muro. Caramba, muita gente engoliu! Aí caímos de novo no que ocorre no Brasil, essa individualização, esses Big Brothers. O dinheiro norteia a vida das pessoas, eu não sou ingênua, sei muito bem disso, mas, só isso? Você anda nas ruas e ouve as pessoas falando da crise econômica, de uma forma que dá a entender que todos são patrões! O crescimento absurdo dessas igrejas onde a salvação é aqui e agora, onde você precisa ter para ser... Nossa sociedade foi criada na violência, na submissão, com exceções à regra, mas sempre com esse fantasma, não podemos nos esquecer disso.

Temos no Chile inúmeros grupos que se articulam e criticam as políticas de privatização do ensino, por exemplo, aqui em nosso Estado, os professores não conseguem mobilizar uma greve descente, mesmo com as arbitrariedades do governo e a educação pública jogada no lixo. Esse conformismo, do tipo “o brasileiro é pacífico”, é altamente deglutido pelas pessoas, e aí nos vemos com essa patifaria, pequenas mobilizações, juntar meia dúzia de pessoas, e só. Após o 11 de setembro de 2001, realmente o movimento antiglobalização deu uma diminuída, a política do terrorismo ajudou e muito para isso, mas após mais de 6 anos, e com tudo o que está acontecendo em termos de política nacional e internacional, das reuniões de cúpula, das questões ambientais, “crise financeira” etc., há uma possibilidade de mudança, mesmo que em pequena escala. Mas no Brasil, ora, no Brasil... Fica tudo igual! Uma vez li um texto do João Cabral de Melo Neto, que afirmava que as pessoas no Brasil estão muito mais preocupadas no que comer, do que em luta social, acho que em grande parte isso ainda continua, e olha que ele escreveu isso na década de 40. Claro que aqui eu estou generalizando, existem grupos, pessoas, autônomos etc. que querem modificar essa realidade débil em que vivemos, mas na conjuntura geral, nós aqui não conseguimos atingir 1% da população. Tá compreendendo?

ANA > Há potencialidades de surgir novos horizontes de lutas libertárias na região? De mobilizações, ação direta, desobediência civil... Ou são muitas barreiras...

Bárbara < Eu acredito que sempre há possibilidades. (risos) Eu preciso acreditar! Penso que as barreiras são muito mais individuais. Pessoais em um primeiro momento, porque se a idéia é questionar, mobilizar etc., sabemos que a máquina, que a mídia, que o capital irá tentar de todas as maneiras nos “normatizar”, ou, o que é pior, transformar o ideal em um consumo. Por exemplo, se eu quiser fazer um “visual” agressivo, vou à C&A e compro uma camiseta já rasgada, uma calça já manchada, e por aí vai... Mas para conseguir mobilizar, aglutinar pessoas, temos que ter uma parcela da população interessada nisso. Mas, afinal, o que realmente as pessoas querem? Está aí uma boa pergunta, porque qualquer demonstração de ação direta é vista por muitos, e aí vamos colocar partidários ou não, como atitudes “radicais”. Ora, radical é termos seres vivos que moram em caixa de papelão!

Além dessas barreiras, temos os “anarquismos” também, e fica complicado, porque na realidade a luta torna-se uma grande briga de egos, e de “verdades absolutas”. A realização de ações realmente práticas só darão efetivamente certo, no momento em que essas barreiras acabarem, ou na pior das hipóteses, diminuírem. É parar de achar que todos são inimigos em potencial. Então temos duas questões, os “ismos” e as pessoas... ou então ficamos como estamos, com pequenas ações pontuais, e só. Seguindo com paus, pedras e poesias, ou esperando alguma mágica acontecer...

ANA > Faz pouco tempo você retornou do Estado de Roraima. Houve algum momento que você sentiu a força da Mãe Terra? (risos)

Bárbara < (risos) As chuvas amazônicas, realmente são de impressionar, e quando aquelas gotas gigantescas caíam, fazendo o barulho de uma enxurrada, e depois saía aquele sol dos trópicos, onde dava para ver nas poças os girinos, era algo que me deixava "de cara". Mas lá, apesar de todo o esplendor da natureza, se apresentam o mesmo discurso "desenvolvimentista" com os arrozeiros, os madeireiros, os criadores de gado...

ANA > Sua pequena e fofa filha se chama Gaia. É uma homenagem à Mãe Terra? (risos)

Bárbara < Claro! Sempre gostei de mitologia, e as relações entre a Deusa Gaia e a Natureza. Ela como o espírito da Terra, é algo muito poético e belo, inúmeras histórias da mitologia grega relatam o sofrimento de Gaia quando em épocas de guerra entre homens ou deuses que usam aquilo que ela criou com todo o amor, para destruir uns aos outros. Ótimo mesmo é ouvir ela, que tem 6 anos, explicar a genealogia do próprio nome. Simples assim: Gaia é Terra!

ANA > E alguém, mãe ou pai das amiguinhas dela, parentes... já “torceu o nariz” por causa deste nome? (risos)

Bárbara < (risos) Inúmeras vezes! O que me irrita mesmo é quando perguntam e falam: “Ai, que diferente!” Porque nessa hora você, só pelo tom de voz percebe que a pessoa não tem idéia do significado, nem nada. Mas em relação às outras crianças da idade dela, com o nome é algo bem tranqüilo, uma vez que crianças não são preconceituosas, discriminatórias. Elas tornam-se assim, com o passar do tempo, o que é uma pena. Mas a Gaia sabe explicar o nome dela direitinho, e para os adultos também! (risos)

ANA > As últimas palavras são suas.... Valeu pela paciência! E vamos torcer para que os leitores que chegaram até aqui não nos chamem de “eco-apocalípticos”. (risos)

Bárbara < Valeu pelo espaço, e que possamos sim, deixar um "ambiente" para todos que estão aí e os que virão. Meus netos? Talvez... (risos) Para isso, e não tem jeito, é luta, é conscientização, respeito, e compreender, como disse os indígenas da Nação Crê: “Quando a última árvore for abatida, o último rio secar, e o último peixe for pescado, então o homem vai perceber que o dinheiro não é, afinal, comestível.”

agência de notícias anarquistas-ana

"Majestoso ipê
Um dia já foi semente
nas mãos de meu avô"

Eunice Arruda

terça-feira, 2 de junho de 2009

Just Seeds

Dylan Miner - Arte está viva…La economía está muerte


Chris Stain - Threat of Chance


Santiago Armengod - Lee un Pinche Libro (Read a Fucking Book)



Santiago Armengod - Consumo (Consumption)

Favianna Rodriguez - How Can I Be Sure?


Meredith Stern - Freedom Butterflies


Chris Stain - Cries Of the Ghetto